Área Internacional amplia fronteiras e consolida o agro gaúcho como polo global de negócios

Investimentos e cooperação internacional abrem novas frentes comerciais

A área internacional da 26ª Expodireto Cotrijal confirmou, mais uma vez, o papel do Rio Grande do Sul como ponto de encontro estratégico do agronegócio mundial. Com representantes de cerca de 70 países e visitantes dos cinco continentes, o espaço fomentou acordos, prospecção de investimentos e debates geopolíticos que vão além do campo — conectando tecnologia, segurança alimentar e desenvolvimento econômico.

“Hoje, a Expodireto é a feira mais internacionalizada do agronegócio brasileiro. Recebemos delegações com interesses distintos, mas todas buscando conexão com a nossa capacidade produtiva e tecnológica”, resume o conselheiro da área internacional, Evaldo Silva Júnior.

África: segurança alimentar e parcerias de longo prazo

A presença africana foi uma das mais expressivas desta edição, com delegações de países como Nigéria, Gana, Namíbia, Tanzânia e Gabão. Sob o conceito “Food Security is Defense too”, os países reforçaram a segurança alimentar como pauta estratégica. Além da busca por tecnologia em genética animal, produção de grãos e mecanização agrícola, a feira marcou um avanço significativo: a disposição de investimento conjunto por parte dos africanos, algo ainda tímido em anos anteriores.

Um dos principais marcos foi a assinatura do acordo de cooperação entre a Universidade de Abuja (Nigéria), o IIFHES – International Institute for Food, Health, Education & Sustainability e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. O objetivo é promover, em parceria, programas de intercâmbio de ensino e aprendizagem, transferência de tecnologia, treinamento e capacitação e fomento ao empreendedorismo e desenvolvimento do ensino e da aprendizagem por meio da reciclagem e engenharia reversa.

Também foi formalizado um acordo entre a Associação de Agricultores da Nigéria (AFAN) e a empresa gaúcha GIHAL, para exportação de plantadeiras adaptadas à pequena propriedade, incluindo treinamento técnico e suporte completo ao produtor.

A presença institucional foi reforçada pelo ministro da Indústria do Gabão, Lubin Ntoutoume, que destacou o interesse em replicar a expertise brasileira. “O Brasil tem uma organização e um conhecimento que podem beneficiar o Gabão. Estamos abrindo parcerias para desenvolver nossa soberania industrial e alimentar”, afirmou. Segundo ele, o país africano vê no Brasil um parceiro estratégico para diversificar suas relações econômicas.

Uma missão oficial da área internacional da Expodireto ao continente africano já está prevista para 2026, ampliando as agendas iniciadas no evento.

Investimentos e expansão industrial no radar da China

A presença chinesa foi marcada por movimentos concretos de investimento. Empresas como LiuGong e Bodo Electric participaram ativamente da feira e prolongaram sua estada no RS para avaliar possíveis locais de instalação de unidades industriais.

O CEO da Bodo Electric, Dai Zhixuan, destacou o interesse em ampliar operações no Brasil. “Já temos relação comercial com o país, exportando motores e bicicletas elétricas. Agora buscamos expandir nossa presença e investir localmente”, afirmou.

A possibilidade de uma missão da Expodireto à China ainda em 2026 também está em pauta, reforçando o fluxo bilateral.

Índia com mercado em expansão e interesse industrial

Com a maior população do planeta, a Índia segue ampliando sua aproximação com o agronegócio brasileiro. Empresas indianas apresentaram soluções em máquinas agrícolas, drones e equipamentos para fruticultura, com interesse direto em exportação e, futuramente, instalação de unidades no Rio Grande do Sul para aumentar competitividade.

A participação do CEO da Risun Global, Sachin Dilip Jadhav, reforçou o potencial de cooperação em cadeias produtivas e inovação tecnológica.

Acordo Mercosul e desafios do agro gaúcho

Em meio ao avanço das conexões internacionais e à intensificação das trocas comerciais vistas na Expodireto, um tema atravessou conversas de corredores, reuniões institucionais e agendas de negócios: o Acordo de Parceria Estratégica entre Mercosul e União Europeia. O entendimento entre os blocos reconfigura possibilidades e acende alertas, ao colocar frente a frente dois dos maiores polos produtivos do mundo.

Para o agro brasileiro — e, em especial, o gaúcho —, trata-se de uma oportunidade concreta de ampliar mercados e atrair investimentos, ao mesmo tempo em que impõe o desafio de competir em condições mais abertas com tradicionais potências europeias.

Por outro lado, o tema também gerou preocupação. Países como França e Polônia demonstram receio diante da competitividade do agro brasileiro. Do lado gaúcho, o alerta está em setores sensíveis. “O acordo pode atrair investimentos e fomentar joint ventures, mas precisamos olhar com atenção para segmentos como vinhos, espumantes e azeite de oliva, que enfrentarão concorrência direta de países como Itália, Espanha e Portugal”, pondera Evaldo Silva Júnior.

Participação da Alemanha 

Nesse cenário, a Alemanha desponta como peça-chave. Considerada uma das principais portas de entrada do agro brasileiro na Europa, o país teve participação relevante na feira, representado por empresas do setor e pela gestora de projetos da IFW Expo Heidelberg, Irene Ziegler, que esteve pela primeira vez na Expodireto. A IFW é uma das mais tradicionais organizadoras de feiras internacionais da Alemanha, com mais de 30 anos de atuação nos setores de agricultura, alimentos e tecnologia alimentar, além de gerenciar pavilhões alemães no exterior em nome de ministérios federais.

Impressionada com a estrutura do evento, Irene destacou o nível de organização e profissionalismo encontrados. “Tudo é perfeitamente organizado. A estrutura, a segurança, a resposta das empresas. Comparada a outras feiras, me sinto quase em férias”, afirmou. Ela também chamou atenção para avanços ambientais percebidos durante a feira, como a separação de resíduos. “É um bom indicativo de evolução.”

Ao analisar o acordo Mercosul–União Europeia, Irene aponta um cenário favorável, especialmente no que diz respeito à redução de tarifas e à ampliação do fluxo comercial. “Vejo como positivo, com facilitação para entrada de máquinas e alimentos brasileiros na Alemanha”, destacou, reforçando o potencial do país como hub estratégico para a inserção de produtos brasileiros no mercado europeu.

Geopolítica e desafios logísticos

A área internacional também sentiu os impactos da instabilidade global. Conflitos no Oriente Médio impediram a participação de delegações de países como Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque e Israel, que haviam confirmado presença.

Além disso, problemas logísticos afetaram deslocamentos, especialmente de representantes asiáticos, evidenciando como a geopolítica interfere diretamente no fluxo de negócios internacionais.

Um hub global do agronegócio

Entre acordos assinados, missões planejadas e investimentos prospectados, a 26ª Expodireto Cotrijal consolida sua posição como plataforma global do agronegócio. O evento é referência internacional em espaço de articulação estratégica. “Cada país chega com uma demanda diferente — tecnologia, genética, investimento ou mercado. E é essa diversidade que transforma a feira em um ambiente único de conexões reais”, resume o conselheiro da área internacional da feira, Evaldo Silva Júnior.


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