Vice-presidente da CCGL, Guillermo Dawson Junior, detalhou o projeto que ampliará a capacidade do Porto de Rio Grande para receber navios de grande porteCom investimento de R$ 680 milhões no novo Termasa e a regulamentação do "Combustível do Futuro", setor se prepara para ampliar a competitividade
Soluções para um mercado que precisa se abrir às novidades e os avanços no escoamento da produção de grãos no porto de Rio Grande foram os temas que dominaram no 36º Fórum Nacional da Soja. O evento ocorreu no segundo dia da 26ª Expodireto Cotrijal, no Auditório Central, com lotação máxima, e reuniu um público atento sobre as novidades do setor e as expectativas de mercado para o futuro. Além disso, foi assinado um protocolo de intenções para cooperação tecnológica.
O encontro foi aberto pelo presidente da Expodireto Cotrijal, Nei César Manica, que classificou o evento como um palco de discussões e de busca de soluções. "Nós precisamos sair da feira com encaminhamentos definidos para solucionar os temas discutidos aqui," disse Manica.
Um novo terminal é esperado para outubro
O primeiro assunto do dia, “Da adversidade à vantagem competitiva: o novo ciclo estratégico do Termasa", contou com o vice-presidente da CCGL e doutor em Engenharia de Produção de Sistemas, Guillermo Dawson Junior. O Terminal Marítimo Luiz Fogliatto (Termasa), no Porto de Rio Grande, operado pela CCGL, passa por uma obra de ampliação completa, com previsão de entrega para outubro de 2026. O investimento é de R$ 680 milhões.
Para ilustrar a importância do terminal e como a coragem de produtores no final da década de 60 foi fundamental, Dawson contou a história de como o terminal foi construído. “Assim surge o primeiro terminal graneleiro do país e o maior da América Latina”, diz. Ocorre que a produção ao longo das décadas cresceu e a necessidade de um escoamento eficiente também, ainda mais perante essa necessidade de diminuir os custos para o produtor.
Diante disso, a CCGL apresentou um projeto de ampliação do terminal, proposta que aguardou o aval governamental durante 17 anos. Em maio de 2024, a catástrofe climática atingiu o Porto de Rio Grande e o Termasa teve sua estrutura danificada. Em função dessa realidade, os planos mudaram e a decisão foi reformular totalmente o espaço inaugurado em 1970. “De novembro de 2024 até março de 2025 trabalhamos no desmanche da antiga estrutura. Enquanto isso, se fazia o projeto do novo Termasa”, explica o vice-presidente da CCGL.
Quando estiver operando, o terminal terá um aumento da capacidade estática de 280 mil toneladas em 2024 para 400 mil toneladas em 2026.
Além disso, o Termasa poderá passar a receber navios Capesize de 150 mil toneladas. Até então, eram recebidos navios Panamax de 70 mil toneladas. "Esse aumento representa um potencial de renda para os produtores. O terminal em Rio Grande é uma ferramenta logística importante para a cadeia do agro. Quanto melhor for a operação em Rio Grande, maior vai ser o prêmio. Quanto maior forem os navios, menor vai ser o custo do frete", explicou Dawson.
Além disso, o novo terminal terá tecnologia de última geração, com capacidade de operar 10 milhões de toneladas por ano, somado ao terminal Tergrasa, que assumiu toda a exportação desde os problemas recorrentes da crise climática de 2024. O Termasa terá descarga, armazenamento e expedição robustos, além de uma estrutura adequada à legislação atual. “Não dá para fazer uma obra deste tamanho sem pensar no futuro. Foi esse o desafio começado na década de 60, de coragem daqueles primeiros, que hoje estamos fazendo outra vez”, concluiu.
Ao fim da palestra de Dawson, o presidente da FecoAgro, Paulo Pires, pediu que o público se levantasse e desse uma salva de palmas para todos os profissionais e às empresas parceiras envolvidas na obra, o que foi prontamente atendido. “Sem terminal, não temos agronegócio, porque nenhuma empresa vende sem eficiência na expedição”, pontua.
Biodiesel é a nova China para o Brasil
O segundo tema do fórum ficou a cargo do consultor Marcos Rubin, CEO da Veeries, empresa de inteligência para o agronegócio. O especialista trouxe uma reflexão sobre “2026: novo ciclo da soja e do milho”, analisando séries históricas de produção. Rubin apresentou uma análise do mercado a partir de 2005, detalhando os ciclos de produção e como o comportamento do clima impacta no volume de grãos. “Aqui no estado o diferente é o clima e vocês precisam de um sistema de produção próprio. Vocês sabem disso. A questão é como colocar em prática”, avalia.
Segundo o consultor, a produção de soja será recorde no mundo e não é a China que dará conta deste consumo. “Não é a soja que vai nos fazer prosperar nos próximos 20 anos”, afirmou, dizendo que o “consumidor” agora é outro. “O biodiesel é a nova China para o Brasil. Conceitualmente, é dos programas de biocombustível que virá o nosso crescimento", afirmou Rubin, alertando que há um teto para as importações chinesas.
De acordo com ele, o Brasil importa 30% do diesel e não terá como passar ileso caso o petróleo suba no exterior.
Ele chamou atenção para a previsão de que o biodiesel seja responsável por uma boa fatia do crescimento nos próximos cinco anos. "Se olharmos para 2031, 30% da soja que produzimos terá como destino o biodiesel. Nós vamos precisar de 7 milhões de hectares a mais de soja, só para atender o mercado de biodiesel. É ali que está o nosso crescimento", destacou Rubin.
Rubin lembrou que a Lei Combustível do Futuro, nº 14.993/2024, prevê o aumento escalonado da mistura de biodiesel ao diesel em 1 ponto percentual ao ano, até 20% em 2030. Por fim, o especialista relatou que a colheita da soja avança sem atrasos no país, com quebra consolidada no Rio Grande do Sul. Segundo dados da Veeries, a projeção é de produtividade de 57 sacas por hectare.
O vice-governador do RS, Gabriel Souza, assim como Rubin, também destacou a "Lei do Combustível do Futuro", que regulamenta e cria programas de incentivo à produção e ao uso de combustíveis sustentáveis.
"Mais de 70% da matéria-prima do biocombustível vem da soja, outros 10% vêm da gordura animal. Nós precisamos aumentar a nossa matriz produtiva desse combustível”, disse. “Nós temos tudo para melhorar a capacidade de agregação de valor do nosso produto primário, gerar emprego, renda e utilizar a produção primária da lavoura dos gaúchos dentro do Rio Grande do Sul na agroindustrialização", completou o vice-governador.
Para o produtor Carlos Daniel Cavari, 32 anos, de Espumoso, que fez questão de levar o filho para conhecer a Expodireto, a soja é mais do que uma cultura; é uma herança familiar que ele cultiva desde a infância. No entanto, o otimismo com o grão tem sido testado por uma sequência severa de adversidades climáticas. “Na nossa região, estamos entrando para o sexto ano de seca’, lamenta. Como na segunda março a região já enfrentava 30 dias sem chuva, o produtor projetava uma colheita antecipada com perda razoável.
Segundo o agricultor, o custo está fora do normal e o preço do grão não acompanha a perda na colheita. Para equilibrar as contas, a estratégia é não deixar a terra parada no inverno, apostando em coberturas como aveia e trigo.
Além do clima, Cavari aponta a dificuldade de acesso a recursos financeiros como um gargalo para quem produz. “Nossos governantes não olham para o lado do agro, parece que está abandonado. Hoje é difícil conseguir recurso, a burocracia nos bancos é enorme. Precisamos de um olhar mais carinhoso com o agricultor”, desabafa.
Também participaram do painel de abertura o vice-presidente da Cotrijal, Enio Schroeder; o presidente da CCGL, Caio Cezar Vianna; o presidente do Sistema Ocergs-Sescoop/RS, Darci Hartmann; o secretário estadual de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Edivilson Brum; e o secretário estadual de Desenvolvimento Rural, Gustavo Paim.
Protocolo de intenções
No encerramento da cerimônia de abertura, foi assinado um protocolo de intenções para cooperação tecnológica entre a Seapi e a CCGL. O objetivo é integrar o uso da plataforma digital SmartCoop ao desenvolvimento de funcionalidades tecnológicas de interesse público para o setor agropecuário gaúcho.
A parceria prevê a integração de dados agroclimáticos e o desenvolvimento de ferramentas de apoio à gestão das propriedades. Também possibilitará a conexão entre a SmartCoop e o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro/RS), assim como a criação de sistemas de alertas epidemiológicos e de predisposição climática para doenças em culturas agrícolas.
31 - Mai
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